Sexta-feira, 28 de Março de 2008

“Na diversidade é que está a riqueza”

 

 

 

A Póvoa de Varzim vai receber, entre 22 e 24 de Abril, o primeiroCongresso Internacional de Turismo Cultural e Religioso, organizado pela Turel. Para saber mais quanto a esta actividade, o Póvoa Semanário entrevistou o cónego Eduardo Melo, presidente executivo desta Cooperativa de Turismo Religioso

 

 

Este congresso pretender abrir portas ao debate e à reflexão quanto à evolução que se pretende no Turismo Religioso em Portugal e no mundo. De que forma é que isso é possível?

 

 

 

Antes de responder a essa pergunta, gostava de esclarecer que a Turel tem cinco anos de existência, foi fundada com o intuito do desenvolvimento Cultural e Religioso no sector do Turismo. Foi um nascimento que teve pensamento longínquo da Associação Comercial de Braga, na pessoa do seu director executivo, Abílio Vilaça que germinou esta ideia, em colaboração comigo que nessa altura, exercia funções de vigário-geral. Procurámos aglutinar à nossa volta entidades capacitadas que pudessem ter interesse imediato nessa iniciativa. Fizemos um estudo profundo sobre a realidade existente que foi preparado por uma equipa da Universidade do Minho. E só depois de muita discussão é que procedemos à criação desta cooperativa. Pouco antes, houve uma carta magna que foi assinada numa sessão presidida pela ministra da Educação.

Actualmente, a Turel tem dioceses que são elementos fundacionais, muitas Câmaras Municipais e outras entidades individuais e colectivas que, em conjunto, empreendem um trabalho de grande valor. De destacar que a cooperativa já conta com quase todas as autarquias do Norte do país, o INATEL, entre muitas outras instituições, que têm como objectivo difundir e implementar a noção do que é o turismo cultural e religioso.

 

Vai ser uma grande organização…

O Congresso é um meio prático e muito útil, embora de organização difícil. Para verificar o alcance de tal iniciativa, basta dizer que vão participar nele, o secretário de Estado do Turismo, Bernardo Trindade, o presidente da CCDR Norte – Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional, Carlos Lage, o secretário-geral da Organização Mundial de Turismo, Francesco Frangialli, o ministro de Turismo de Israel, Yitzahak Aharonovitch, a assistente do Director Geral para a Cultura da Unesco, Françoise Riviére, a ministra de Turismo do Brasil, Marta Suplicy, o secretário de Estado do Turismo e Comércio de Espanha e os secretários do Turismo de França e Itália. Para além do cardeal patriarca de Madrid, António Rouco Varela e do Núncio Apostólico da Santa Sé em Madrid, arcebispo Monteiro de Castro, arcebispo primaz de Braga, D. Jorge Ortiga e muitos professores de universidades estrangeiras. Essa foi, aliás, uma das condições impostas pela CCDR para a realização do Congresso: a presença de mestres, estudantes e profissionais da área.

Esta promoção do Turismo religioso vai envolver todas as técnicas que se usam no turismo comercial?

Isso não é fácil, mas também não é difícil. Podíamos dizer que este congresso está envolvido no âmbito de uma ciência que é tão antiga como o homem e que está em franco desenvolvimento: a Antropologia. Cultural, Filosófica ou Religiosa, esta tem sempre o cerne no homem, o que verificámos é que, em todo o mundo, encontramos ‘formigueiros’ de turistas. Uns como romeiros ou peregrinos, outros como artistas, ainda quem queira passear, o que é certo é que, em tudo isto há apenas uma coisa em comum que é a componente humana. De resto, existe uma miscelânea de motivações. Em vez de falarmos de turismo religioso, devia-se abordar a temática como Turismo espiritual. Pois mesmo os que procuram os locais religiosos sob a perspectiva cultural, acabam por encontrar uma vertente espiritual. Sem dúvida que sabemos procurar esse equilíbrio. Podemos até dizer que o património cultural português é, essencialmente, de cunho religioso. Entra-se numa catedral e fica-se abismado, pois existe um peso histórico, um peso arquitectónico, a estatuária, a música. E quem entra nas catedrais, e fica com os olhos fixos neste ou naquele ponto, mas a verdade é que a sua alma está precisada de alguma coisa. Sem fazer proselitismo religioso, temos que descobrir sempre o pendor espiritual no turismo cultural.

Existem agências turísticas que vão longe fazer propaganda de actividades. Por exemplo, o presidente da Comissão de Turismo ‘Verde Minho’ foi a Moscovo e a algumas cidades alemãs fazer propaganda da Semana Santa de Braga. E não é exemplo único. A diocese de Beja foi apresentar, recentemente, em Roma, uma exposição de Arte Sacra. Parte do desejo de querer dar a conhecer realidades diferentes.

Como conciliar as visitas de turistas a alguns locais religiosos com aqueles que estão em oração?

Em geral, durante os actos de culto não há visitas. Pode-se entrar, mas não se pode percorrer as naves. Até na Sé de Braga, em dias de culto, temos uns guardas especiais que, na altura das missas, que controlam esse fenómeno. Normalmente existem locais recatados nas catedrais para oração. Depende, também, dos guias turísticos informar as pessoas como se têm de comportar. A verdade é que vejo mais incorrecção na altura dos casamentos, em que os convidados falam alto e sem qualquer respeito, do que da parte dos turistas.

Para um público mais jovem, esta pode ser uma nova forma de encarar a religião?

Sim. Há certas pessoas que têm uma ideia errada do que é a Igreja e, para elas, esta é arte, com os seus altares, talhas, música, imagens. Mas para outros, a religião tem mais a ver com peso litúrgico de algumas cerimónias. Já encontrei, em Braga, muitos grupos turísticos que vinham, única e exclusivamente, procurar a parte turística no campo da talha, outros no da arquitectura, ainda outros no da História, mas também existe quem venha por causa da Fé.

Quanto à Juventude, já promovi, enquanto deão da catedral, dezenas de concertos de Música Sacra, polifónica e clássica e esta enchia-se de jovens. Não pensem que estes só gostam de música moderna. Se dermos só batatas às pessoas, elas enjoam. Na diversidade é que está a riqueza. Esta é a prova evidente que os jovens sabem encontrar as expressões de Fé, mesmo na música.

Existe diferença entre quem faz Turismo e quem vai em peregrinação?

Distingo entre turista e peregrino. Aquele que vem para Portugal conhecer as praias, as montanhas e os monumentos é apenas um turista. Mas existe quem dentro desse grupo tenha a intenção de passar por Fátima, pelo Sameiro ou a qualquer outro santuário.

Dei uma vez uma entrevista a um canal de televisão em que, a dada altura, o entrevistador me perguntou: "O que me diz de Fátima?". Ao que respondi: "Diria muito, mas nesta situação, com tempo limitado, apenas posso dizer que é um caso muito sério e não pode ser tratado levianamente. Mas afirmo que quando um homem vai a Fátima por curiosidade ou como turista, algo se passa na sua alma". Ao que ele me respondeu: "acontece-me precisamente isso". E era alguém que, pelas suas ideias e princípios, estava muito afastado da Igreja Católica.

A Fé é como a casa de um fruto, envolve-nos. Só damos pela casca quando a tiramos para comer o fruto. O homem quando diz que não tem Fé, não é verdadeiro. Basta soprar para descobrir o Fogo debaixo das cinzas.

Sempre que há uma crise, crescem as visitas aos locais religiosos. Essa é a Fé a que se refere, que está ‘debaixo da casca?

Tenho versado sobre esse tema ao longo dos anos. Tanto mais, por exercer o cargo de presidente de Nossa Senhora do Sameiro. Tenho feito o máximo por difundir a mensagem de Nossa Senhora e por melhorar o santuário e a sua envolvência e tenho assistido às peregrinações, quer de Junho, quer de Agosto. E verifico que tal como um filho que quando está aflito, mesmo que seja adulto, se agarra às saias da mãe, o Homem quando se sente em apuros, também se agarra a Nossa Senhora. É um dado concreto.

Essa será uma forma egoísta de viver a religião?

Segundo o Evangelho, Cristo disse: "Sem mim, nada podereis fazer". E o Homem, por vezes esquece isso, mas, no momento oportuno vem ‘bater à porta’ do Senhor. Os homens às vezes negam-no, mas ele está sempre presente.

A Turel vai ‘vender o seu produto’ nas grandes feiras do sector a nível nacional e a internacional?

A cooperativa serve para dar a conhecer as novas realidades turísticas e religiosas, mas não para vender qualquer produto. Este é um grande mostruário e a prova disso é que temos tido guias residentes em muitos dos santuários (Sameiro, Penha, São Bento da Porta Aberta, etc) para que possam mostrar aos visitantes o património cultural e religioso. Temos, igualmente, publicado guiões dos santuários (Nossa Senhora do Carmo, em Famalicão, Santuário do Bom Jesus, em Braga, entre outros) que servem para informar os turistas.

As agências de viagens podem interligar-se com a Turel e pedir informações e colaborações?

É nesse sentido que queremos seguir. Gostávamos de ter um guia em cada santuário. Alguém que, com responsabilidade e em colaboração com os sacerdotes, possa mostrar as igrejas e o seu património.

Existe formação para os guias residentes?

Temos cursos de formação global, no âmbito da Cultura e da Religião, pois procuramos que as pessoas não sejam meros técnicos, mas que haja uma vivência associada.

O ano passado, entendemos utilizar todos os instrumentos e meios para promover o Turismo na região. E fizemos mesmo um curso para todos os taxistas de Terras do Bouro que, durante três semanas, estudaram todos os locais de interesse do concelho. Sabemos que o povo português é maioritariamente católico. Há quem argumente que grande parte não são praticantes, mas defino que os se é ou não católico, não existe esta distinção.

Rotas de Peregrinos Fátima, Braga e Santiago de Compostela. De que forma é que esta ligação é estabelecida?

Houve sempre uma ligação grande entre Braga e Santiago de Compostela. Em muitos momentos estiveram de costas voltadas, a partir do século XII, quando o arcebispo de Santiago, D. Diego, veio a Braga roubar as relíquias de São Vítor, Santa Susana, etc – mas essas imagens, séculos depois, foram devolvidas. Fui actor no processo de devolução devido ao entendimento com cardeal Rouco Varela e com o cabido da Sé de Santiago de Compostela.

Até o povo diz que quem não vai a Santiago de Compostela vivo, vai depois de morto. E a verdade é que são muitas as pessoas que visitam o túmulo de um apóstolo. Por outro lado, sabemos a força que tem o Sameiro em todo o Norte de Portugal. Antes das aparições de Fátima, esse era o fulcro da devoção de Nossa Senhora. Digo muitas vezes que Nossa Senhora tem muitas casas e portanto não pode haver litígios, tem que haver a fecundação deste amor na Santíssima Virgem. Fátima, Sameiro e Santiago é uma linha recta e as pessoas aparecem. São imensas as peregrinações da Galiza até Fátima, passando por Braga, e no sentido inverso. Evidentemente que quem pensa só no Turismo é capaz de não fazer isso, mas quando existe a componente religiosa fá-lo. A verdade é que quem vem ver o Sameiro, acaba por também verificar que Braga é possuidora de um património extraordinário, com excelentes museus e edifícios e as tradições.

Em relação à Póvoa e depois da beatificação de Alexandrina de Balasar, é possível estabelecer também uma ligação entre a vertente cultural e religiosa?

Sem dúvida. É notório o encaminhamento que flui para esse local. É um pólo de atracção. Outra realidade que encontramos que junta a grandeza de Deus e também a grandeza do povo na sua Fé. Não vão lá para ver qualquer relíquia, mas para manifestar a sua Fé. Balasar está também neste roteiro, pois fica a caminho.

O presidente da Câmara da Póvoa, Macedo Vieira, já disse que há necessidade de olhar para Balasar como um pólo muito especial e ver quais as opções a tomar para desenvolver aquela zona. Julgo que autarquia está atenta a isso e a diocese de Braga também.

Porque razão escolheram a Póvoa de Varzim para receber o vosso Congresso Internacional?

Houve muitas candidaturas e optámos pela Póvoa de Varzim, na sequência do Fórum de Arquitectura Religiosa que se realizou, o ano passado, e que foi um sucesso. È um local aprazível mas, fundamentalmente, o que nos levou a tomar a decisão final foi a atenção, o cuidado e o carinho do presidente da Câmara e do vereador com o pelouro da Cultura que quisemos, de alguma maneira, retribuir. Para além disso, existem condições logísticas, climatéricas e estou certo que esta foi uma boa escolha.

Afirmou num jornal que "a nossa mentalidade e tradição religiosa são o que de melhor temos para oferecer em termos turísticos". Pode apontar-se o turismo religioso como uma das opções mais interessantes do sector?

Quem anda metido nestas questões do Turismo, verifica que há muitos locais que têm uma vertente cultural. Mas qualquer arte tem o espírito do Homem e este é religioso. Se não fosse, muitas vezes, o turismo religioso, muitos monumentos estariam em ruínas. Se depois da implantação da República, muitos templos se mantiveram, mesmo quando os mosteiros e conventos ao seu lado ruíram, isso deve-se à Fé do povo e ao cuidado da parte religiosa. Estou convencido que este fomentar vai ajudar a movimentar a Economia. Quando faço um guião e esse se espalha, as pessoas podem sentir-se motivadas a ir. E mesmo as pessoas da terra, que muitas vezes nem sabem o valor que têm ao pé da porta, acabam por ir visitar e ajudar o local.

 

 
Catarina Pessanha
in:Póvoa Semanário

publicado por lamire às 17:29
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